C I D A D E V A Z I A



Sinta-se desconfort�vel na Cidade Vazia.

Aqui � o meu Lar, aqui eu vivo, aqui eu estou.

Fora daqui, existe alguma coisa?

Ethan Green



Lim�ozinho

Gene Podre

Rumo � Tempestade





24/03/2007 17:59
Av.Beira Mar


Um arrepio. Você contrai fortemente os dedos dos pés, reagindo naturalmente ao arrepio que percorre a sua espinha. Seu rosto sua profusamente, intumescido e castigado pelo sol e pelo calor que torra a grama e espanta pássaros e bons pensamentos. O choque térmico ao entrar em um ambiente tão competentemente refrigerado provoca, além do involuntário arrepio, algum prazer, prazer aliviado e cínico, de engabelar a natureza, que forçodamente fica para trás, além dos vidros e das portas. Você tem impressão que uma impossível e pesadíssima massa de ar quente está ansiosa para invadir e aquecer por dentro esta imensa escultura de concreto e vidro onde você trabalha. Você olha e imagina vê-la espreitando, esgueirando-se, escorrendo pelas frestas da porta, pelo poço dos elevadores, ar escorrendo como água para dentro de um navio prestes a ser deglutido pela imensidão que é seu meio. Você planeja mal seu tempo. Vez por outra, tem esses momentos de tempo com pouco ou nada a ser feito, sempre fortuitamente aproveitado pela imaginação para dar corpo aos seus labirintos de imagens e dolorosas possibilidades. Seu olhar, perdido, vaga pelas amareladas folhas do belo jardim do entorno. Tempo que sobra, vida que escorre, vida que se esconde da realidade que abafa toda a sua fantasia de se re-conhecer.

Você suspira, lufada de ar que escapa de você, deixando seu peito um pouco mais relaxado, deixando você um pouco mais conformado. Você ouve apenas o ranger da estrutura da confortável cadeira de curvim preto onde você está sentado. A monotonia na qual se converge a paisagem já tão conhecida obriga, tange seu pensamento a dobrar-se sobre você mesmo. Você tem a certeza que não adiantará se esconder por muito tempo da realidade que envolve sua vida. Você sente, sente fisicamente, a relidade lhe forçar cada poro, ecoando em infinitas dobras suas falências e fraquezas, advertindo que é apenas questão, apenas capricho do tempo para que todos os seus temores e ridículas defesas cedam, e numa tormenta dolorosa, transforme você em simples e burocráticos registros na memória da alteridade. Tornar-se o dado dispensável, que você rejeita tão mesquinhamente ser e que, ironicamente, parece ser a coisa inexpugnável de você. Você estende seu braço, tocando com a mão o vidro. Uma lágrima inútil e nula se forma e você ouve o som do abrir-se da porta de vidro. Você varre apressadamente seus farelos para dntro. E fecha a porta. Um arrepio.
enviada por Ethan Green






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