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27/10/2006 01:28
Rua do Teatro
Seus olhos parecem colados por um adesivo forte e impalpável. Pesam pelo menos algumas toneladas, enquanto seus ombros parecem corroídos por uma particular ferrugem. Poucos minutos após as cinco horas da manhã e seu corpo cansado se recusa a cumprir as promessas que a mente obssessiva fez em seu nome. Mãe dominadora, ela determina que você tenha o vigor que se vende pela publicidade das barras de cereais, consumidos com todo o prazer que flocos de arroz podem causar. Você cansado, você imóvel, você se sabendo corpo cansado e mente ditadora ao mesmo tempo. Quase nada mais. Você tem certeza que um dia, cercado de flores, será o primeiro. Por enquanto são as metas impostas, são as cobranças contínuas, as esperanças regurgitadas por uma infância mal-vivida que dão as ordens.
Você se levanta. Passos fracos, panturrilhas trêmulas, boca amarga. A manhã, ainda amarga, desperta por detrás do cinza do concreto, com suas luzes ainda frágeis e indecisos, com sua brisa ainda moça. A água fria lhe diz um bom-dia entediado, e você finalmente enumera mentalmente as tarefas e os passos que lhe aguardam na cidade. Você não quer. Você não está pronto. Mas você vai mesmo assim, sem, olhar o caminho, atenção apenas nos centenas de pares de olhos igualmente cansados que seguem em direção contrária.
A assustadora idéia de que a alteridade só pareça dar crédito aquilo que pode ser uma doença, mas que você vai se re-conhecer como modo de vida, como atributo de você mesmo, enquanto seus pulsos ainda estão abertos, vertendo as restantes esperanças no ralo do banheiro. Você, acostumando a invisibilidade dos olhos do outro, se pergunta se os atos extremos o re-velam de fato ou apenas agridem a covardia da alteridade, inebriada em sua mesmice pachorrenta.
Você sabe, você sabe que as tarefas se atropelam à sua frente, desviando sua atenção imediata do vazio do lado de dentro. Esporte, estudo, trabalho, amizades, convivências, dedicações, todos se enfileiram diante de você, tentando cegar-lhe a contemplação do escuro. E você se embebeda de luz, você estende suas mãos para a claridade, brinca com os dedos, e sorri. Momentos depois você fecha os olhos, e lágrimas surgem nas laterais, onde se encontram as trêmulas pálpebras, escorrem pelo seu nariz, amontoam-se na curva do queixo, espantadas com a força da escuridão do lado de dentro. Você olha para dentro, e não vê. Não há o que ver, há o não-preenchimento, a negação, o vazio. Virar a esquina da Ramalho Ortigão faz sua atenção se desviar novamente, rua cheia, calor, abafamento. A música que consegue escapar às janelas da escola é bonita, é suave, ainda que sem função. São pérolas jogadas ao abismo.
enviada por Ethan Green
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