C I D A D E V A Z I A



Sinta-se desconfort�vel na Cidade Vazia.

Aqui � o meu Lar, aqui eu vivo, aqui eu estou.

Fora daqui, existe alguma coisa?

Ethan Green



Lim�ozinho

Gene Podre

Rumo � Tempestade





10/11/2005 00:50
Rua Teresópolis

"Alta noite já se ia,
ninguém na estrada andava
no caminho que ninguém caminha
alta noite já se ia
ninguém com os pés na água"


Olhar com atenção e curiosidade os registros deixados por outras pessoas, de outros tempos, é instigante e desolador. As fotografias esmaecidas dos velhos estudantes são retratos de uma totalidade assustadora. Você se perde ao repassar repetidamente as mesmas fotos, que no seu preto-e-branco que quase se resume na monotonia do cinza, vibram cores de um fulgor indescritível por trás das suas retinas. Pensar na fragilidade e na volubilidade do viver e do seu corpo físico faz você suar nas mãos e na testa. Pequenas e geladas gotinhas se formam acima das suas sobrancelhas, e você tenta disfarçar, secando-as com as costas das mãos, enquanto tenta, no mesmo movimento, espantar comparações mais perturbadoras. você se perde nas esquinas dessa mesma cidade, desse mesmo bairro de Santa Tereza, mas nessas fotografias do século dezenove, você se perde pelos olhos dessas pessoas em preto-e-branco que viveram esse carnaval. Todas, em suas fantasias de Rei, de pirata ou marinheiro, acompanhavam o carnaval e toda sua vibração. Você repousa o livro sobre suas coxas, pulsos cansados, olhos sôfregos de focar os mesmos pontos do sorriso deste ou daquele folião que já não mais existe, contemporâneo de tantos outros que também não estão, para quais, seja carnaval ou não, reis ou não reis, tudo é simplesmente negação. Você se perde pelos olhos dessas pessoas, acompanha o vinco que desce pela lateral dos narizes e contorna os lábios, emoldurando sorrisos de puro sonho, de puro deleite, de puro prazer. Sorrisos que são por si só, expressão da ansiedade e da sede de vida de todos eles. Todos estão ali vivos e para viver. Todos pensam se um dia serão de fato reis. Mudarão o mundo. Deixarão seu legado para a história da humanidade. Por trás de um punhado de sorrisos, as dúvidas de qual carreira escolher, se devem se casar, se irão dormir na beira da praia, embalados novamente pelos cafunés da amada, se irão ganhar o anel de noivado, se irão comer aquele delicioso bolo de laranjas, logo mais, depois da folia. Eles sorriem e sonham, porque estão vivos. E viver é sonhar com o que será do amanhã, até que este já não mais haja. Todos os sorrisos e sonhos que foram repletos de cor e vida, hoje são lembranças nas fotos em preto-e-branco daqueles que já não mais são. Alguns nem registro de si deixaram, outros nem mesmo uma lágrima mereceram, quando deixaram de ser e de sonhar. Mas sonharam. E sorriram, como sentiram que deveriam sempre fazer. Você, olhos ainda fixos na velha fotografia, sabe-se perecível, insignificante e breve. Sabe que seus sorrisos, tão marcados em tantas fotografias, escondem todo esse apinhado de sonhos e vontades que se apagarão bruscamente e perderão todo o sentido. Mas você, enquanto contempla o velho casario, cenários mudos de gerações de sorrisos, entende que os sonhos não se escondem no sorriso, eles o formam, eles o mantém. E o sorriso, por sua vez, multiplica-se no rosto de quem o vê. Você, perecível e de existência fugaz, carrega o mesmo sorriso daqueles que tanto tempo. E o levará com você, até não poder mais, e outros sorrirão. Você entende que ainda que sua existência não signifique absolutamente nada, você ajuda a transportar e a manter vivo o que é eterno dentro de todos nós, o sonho. E a manter em prática a manifestação visual de sonhar, o sorrir.

enviada por Ethan Green






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