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16/08/2005 17:37
Rua da Alfândega
Cortei o dedo, quando você se foi / e ainda não sarou / só quando você voltar, meu amor / Aí eu paro de sangrar
Um de repente, e você acorda. Na verdade, não tem certeza que está acordado. Você detesta essas noites de semi-vigília, onde cada nesga do reconfortante sono é perturbada por um sem-fim de sonhos mal-ajambrados. Sonhos sobre sonhos, sonhos onde você sonha que dorme, sonha e acorda. Por isso, a dúvida se está acordado de fato agora. Você tenta concentrar-se em algo supostamente concreto, o teto, a porta do quarto, o edredon macio e calorento que cobre seu corpo. Nessa tentativa, você adormece e imediatamente mergulha em outro sonho, onde seu quarto já não é mais o mesmo, mas onde você ainda tenta acordar. E toda essa tortura, todo esse embate da vigília com o sono, do inconsciente com o consciente termina, bruscamente, com o pertinente e irritante som do despertador. Você se arrasta, relutante, até ele, mais cansado que quando decidiu deitar-se no dia anterior, até finalmente alcançá-lo e dar fim ao ensurdecer que o aparelho gera. Com extremo esforço e incompreensão, você se senta, respira e olha em volta de si. Você vê aquele ambiente tão conhecido, tão acolhedor e familiar e ainda assim não se coforta. Com as mãos sobre os olhos, como que tentando não ver algo que está diante de você, você chora copiosamente. Soluços surgem aos borbotões do seu peito, provocando um misto de dor e cansaço no diagrafma e nos pulmões. Você sente seu nariz escorrendo, o rosto inchado de sono e choro e pensa em não se mover. Você gostaria mesmo era de acordar de novo, você sabe. Que esse ainda fosse um sonho. Você não quer repetir a rotina do banho, do pão e leite engolidos com o tédio da fome diária, do vestir-se sem olhar o quê, do sair apressado pelas escadas escuras desse prédio velho. A rotina de ver o sol por alguns segundos antes de precipitar-se nos subterrâneos do metrô e de ter mais alguns segundos de sol, como um gesto de piedade divina, antes de mergulhar no subterrâneo do prédio comercial onde você trabalha. Você não quer repetir a rotina, mas você não consegue, com sua mente embriagada de sono e cansaço, imaginar outra alternativa. Acordar, estudar, trabalhar e entorpecer-se da rotina parece ser o caminho natural, até que lhe caiam os cabelos, as forças e até que você mesmo caia, para, enfim, dormir.
enviada por Ethan Green
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