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22/04/2005 17:29
Praça Ênio
A memória sempre nos prega peças e, vez por outra, nos presenteia com comparações ricas em nuances, detalhes apurados como arabescos, filigranas em um documento antigo. Você senta para observar melhor os detalhes da praça, permitindo que cada mudança rime com o formato que este lugar tem em sua memória. As discrepâncias do novo casam aos poucos com os antigos formatos, cavados pela rotina da passagem diária, em torno das 6:50 da manhã. Por anos e anos você passou por aqui, até que cada irregularidade desta praça malcuidada estivesse gravada como um arranhão em seus neurônios. Parece que hoje, ao passar atento por aqui, Você pode reviver determinadas emoções, angústias, bem e malquereres que povoaram seus pensamentos àquela época. Tempo de juventude mal-brotada, infância teimosa, que se arrastava e invadia os tempos precoces do ginásio. Os pequenos sonhos de amor, as pequenas angústias do novo, que tremulavam as frágeis pernas sob pesadas mochilas. É bom estar apaixonado. Você sabe disso. Naqueles dias, pelo mundo desconhecido que se desvelava aos borbotões. Hoje, pela sutileza do beijo demorado, do toque despretensioso, do carinho sincero. Naqueles dias, você não imaginava uma só vez que seria capaz de viver as atrocidades que hoje são banais, os impropérios que hoje correm de boca em boca, a lascívia em que vivemos todos, perdidos entre o sonho juvenil do casamento e a febre adulta de saber-se degenerado. Você não imaginava que sobreviveria a murros e desejos de morte. Não imaginava que o abandono seria mais doído que finas agulhas por debaixo das unhas. Não sabia que apenas a companhia de si mesmo era suficiente para odiar todos os outros. Esta praça era como ainda é hoje, maltratada, suja e mal-amada. Habitada por maus elementos e maltrapilhos. Ponto de encontro da juventude falastrona, que corre apressada atrás das bolas de futebol, como que correndo do futuro incerto. Dos casais apaixonados, que em seus beijos sôfregos ignoram o azedume do abandono. Dos inocentes que levam seus donos para passear na manhãzinha ainda turva de sereno. Você, olhos de boa-vontade, habituados a um certo bom gosto e alguém de bons modos, prefere ver poesia, nas mazelas de ontem, tão bem rimadas com as cicatrizes de hoje. Você levanta e o sol parece demorar-se em suas sombras, as mesmas sombras de sempre, que protegem a mesma praça e o mesmo Você de sempre. Assustado, apaixonado e vivo.
enviada por Ethan Green
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