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14/04/2005 15:33
General Venâncio Flores
Desde criança, cobiçamos aquilo que vemos, que nos é aproximado desta ou daquela forma. Aquilo que sabemos, mas não vemos; vemos, mas não tocamos; tocamos, mas não provamos; provamos mas não mordemos. Cobiçamos e cultivamos nossa cobiça, nosso desejo, tornando-os fortes, vigorosos e onipresentes em nossos pensamentos, perigando chegar o momento em que confundiremos objetivo, caminho e futuro com nossos mais crus e insensatos desejos. Diz-se então "está cego" ou "parece criança". Você sabe estabelecer os limites, sabe enxergar os parâmetros que delimitam desejo e vontade, impossível e possível, palpável e onírico, sensatez e loucura. Você consegue ver as diferenças sutis e translúcidas entre os sonhos nos quais você mergulhou de cabeça e onde descobriu os muitos significados da idéia de desalento e as conquistas reais, batalhadas e festejadas, igualmente desalentadoras. É um orgulho, um privilégio, um dom, raro e precioso, conseguir racionalizar e estabelecer relações lógicas entre tais abstrações. Tudo inútil. Você é viciado nos mesmos erros e conceitos, tão ligados e dependentes do prazer carnal e das descargas de serotonina da gargalhada, do suspiro, do gozo. Você esquece, faz-se de ignorante da lógica só pela sensação de arrepio causada pelo carinho espontâneo.
Você suspira, ao perder o sono no meio da noite, e constrói toda essa elucubração sobre pensamento, lógica, sensação, desejo e vontade. Você cobiça entender essa sensação de querer e a deseja. Suado, excitado, sexualmente excitado e repleto de vontade, de desejo, de cobiça e outras primariedades, você deixa que a água gelada do chuveiro corra pelo seu corpo e arrefeça tantos hormônios. Você lembra da hora da aula, tão cedo, tão urgente, tão necessária e acalenta a criança ansiosa, que teima em berrar entra suas têmporas. Você se seca, veste-se, arruma a bolsa, pega os livros. Antes de sair, diante da porta, você hesita. Sabe que nunca, nunca conseguirá calar por muito tempo a criança feita de desejos que divide seus pensamentos com o velho eremita.
Hoje os livros ficarão no lugar. É hora de brincar. Brincar de ser feliz e acreditar-se feliz. Tentar. Por um segundo, que seja. Mas não "de mentirinha". De verdade, como só as crianças sabem fazer. Você bate a porta, e vai a praia.
enviada por Ethan Green
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