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28/10/2004 09:40
Beco do Mota Uma mistura de pão, carne queimada, fumaça de motor e urina forma o coquetel de aromas que empesteia o ar. O Velho casario que emoldura esta pequena viela já deve, um dia, ter sido muito bonito. Ou tentado ser, quando dos seus projetos. Você acha que faz falta projetar tristezas para, quem sabe, ser surpreendido por uma alegria. Seria realmente interessante, já que o contrário é tão corriqueiro. Calçadas quebradas e sujas se sucedem sob seus pés enquanto você procura qualquer local menos repulsivo para matar a sede e diluir pensamentos tão estranhos. Você pede uma garrafa de água e um copo. Desiste de usar o copo e se senta em uma velha cadeira de metal, ainda verde, com um logotipo de marca de refrigerante de guaraná pintado no encosto. Velhas festas de aniversário, cada vez mais desbotadas em sua memória, com seus doces, bolos e guaranás. É, devia ser bom. Alguma coisa boa acontecia durante aqueles dias. Hoje é diferente. Hoje você se levanta, ainda com sede e cansaço e segue pela Rua do Matoso, cansado e sozinho e respira fundo, sentindo que seu corpo já não é mais o mesmo, e que sua mente é outra, estrangeira, desconhecida e estranha dentro de si mesmo. Que o que antes era querido, seu e doce acabou. Hoje você é o espelho triste da alegria que um dia você mesmo desejou, diante de uma vela de aniversário.
enviada por Ethan Green
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