C I D A D E V A Z I A



Sinta-se desconfort�vel na Cidade Vazia.

Aqui � o meu Lar, aqui eu vivo, aqui eu estou.

Fora daqui, existe alguma coisa?

Ethan Green



Lim�ozinho

Gene Podre

Rumo � Tempestade





20/06/2004 20:11
Humberto de Campos. Inverno. Um operário maneja habilmente sua britadeira, abrindo uma pequena cratera no chão. Enquanto os curiosos acotovelam-se para assistir, ele habilmente salta dentro do buraco, para realizar a tarefa que o chamou. Você sabe que daqui a uns dois dias, não haverá nem lembrança do buraco. Obras na Zona Sul são rápidas, além de plásticas. Não deixam cicatrizes nas ruas. Você olha para as suas, tão presentes, latejantes. Você admira a mais nova. E sente que precisa de mais uma. Você arrisca. Como um jogador de xadrez neófito frente a um grande mestre (nos tempos que os grandes mestres de xadrez ainda eram humanos), você arrisca. E sente medo ao arriscar. Gotas geladas de suor brotam dos poros em sua testa, e as mãos traem qualquer imagem de segurança, tremendo e tamborilando sobre a mesa um ritmo frenético e taquicárdico. Sua visão de futuro parece desdobrar-se em modestas possibilidades que, ainda assim, parecem gigantescas diante da sua visão diminuta de si mesmo. Você reluta antes de tomar qualquer decisão banal, mas não pensa duas vezes antes de alterar o ritmo de processos vitais. Descobrir-se inimigo de si mesmo é o fim de um processo longo e doloroso de auto-análise. De agressão a si mesmo, esbofeteando-se com verdades, com fatos, com dados. Com precisão matemática, você conclui que é possível ser muitos. Muitos de você mesmo, protegidos por uma falsa imagem agradável e falante, alegre e otimista, esperançosa e vibrante. Alguém de quem as pessoas gostam de estar perto. E você se esforça para ser esse alguém. Investe tempo, energia, estudo. E, por alguns momentos, convence-se que alcançou a meta. Passando quase todos os dias na esquina da Humberto com a Cupertino, você sabe que bastam poucas horas de chuva para encher tudo de água, e a imagem de lugar bom de se viver ir, literalmente, por água abaixo. Você sabe que bastam poucas lágrimas para você ser você mesmo.
enviada por Ethan Green






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