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17/01/2004 00:33
Rua do Couto. Lá você aprendeu a cortar batatas em palitos para fritar. Lembrar desses dias te lembra coisas boas: gotinhas frescas de chuva caindo no rosto. Acordar uma hora antes do despertador trabalhar, e voltar a dormir. Chocolate no caminho de volta pra casa. Pão quente, com um pouquinho de margarina. Arco-íris. Cheiro de pipoca. Os latidos dos cães, quando ecoam de manhãzinha. A salada estalando, na hora da fome. Elis. O abraço das mães. Roupa macia, saindo do varal. Cheiro de livro novo. Maçã verde. Maresia de fim de noite. A Saída do Rebouças. Momentos esparsos. Migalhas. Nutritivas como imperiosas refeições. Você enaltece o simples. O simples que é inspirar, enchendo o peito, e expirar num sorriso gratuito. Você tem medo do próximo instante. Mas esse instante é tão seu, que você esquece suas raízes e se entrega, mergulha na dança das folhas que vivem e se arriscam no extremo dos galhos. Então você lê Cacaso:
Ah!
Ah, se pelo menos o pensamento não sangrasse!
Ah se pelo menos o coração não tivesse memória!
Como seria menos linda e mais suave
Minha história!
(Cacaso - Antônio Carlos de Brito - in 'Beijo na Boca' - 7letras, 2000)
E você sorri. Mais um momento seu. Mais uma cicatriz. Às vezes não importa o peso da entrega, se ele é maior que a vontade de tolher-se e de ser sempre o mesmo. As cicatrizes ainda doem, mas cada nova que se abre faz você esquecer das antigas. Que não importam mais. Você sorri, quando olha para trás. E decide se atirar no abismo do novo. Ainda hoje.
Happy End
o meu amor e eu
nascemos um para o outro
agora só falta quem nos apresentar
(Cacaso - Antônio Carlos de Brito - in 'Beijo na Boca' - 7letras, 2000)
enviada por Ethan Green
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