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09/12/2003 01:22
Marquês de Abrantes. Antes de qualquer outro sentimento, boas lembranças: o amanhecer barulhento das crianças indo para o Bennett, os cachorros sendo levados para o Aterro, o vendo espalhando os galhos das Palmeiras imperiais pela Paissandu. Café da manhã na SucoMania, com bom-humor e sono. Passeios com o Larry, assustando as crianças na Tucumã. Esfiha de verdura na Rotisseria do largo do machado, suco de laranja com beterraba no hortifruti, internet no @11, chocolate de madrugada no pão de açúcar. Lá você tinha um vizinho copista: senhor, de meia-idade, que passava a maior parte do dia sentado, escrevendo (copiando?), escrevendo...horas a fio. Ele nem sabe...mas inspirava muita segurança, nas noites difíceis de solidão. Nono andar, você via as Palmeiras do alto, mas acordava pontualmente com o RioCidade, quebrando as calçadas, urbanizando o já urbanizado. 1 ano de utopia, e você tentando viver sozinho, no nono andar, de onde não se via o cristo, mas você sabia que estava logo ali, atrás daquele prédio cor-de-rosa. Ainda, lembranças: A rotina prazerosa de encontrar Shamile na loja de comida japonesa e andar até Botafogo, passando pela blockbuster, tropeçando na esquina da Clarice Índio do Brasil e correndo para atravessar o viaduto. E, ainda, a volta pra casa, com Bubu a tiracolo. Isso é passado, e logo será devidamente esquecido, como deve ser.
Esse deveria ser o processo natural. Esquecer. Para evitar as cobranças do presente. Ele quer ser como o passado, e você quer muito mais. Ele lhe cobra atitude, jovialidade e garra, e você só quer tempo. Você gostaria de se esconder na montanha mais alta da planície mais gelada do país mais distante do planeta. Você gostaria de se esconder de você mesmo, e nunca mais ter boas lembranças. Você sorri quando lembra, e se atormenta quando sorri. Será vantagem isso? você se pergunta e sorri. Daí, se inicia um ciclo esquisito. Melhor esquecer.
enviada por Ethan Green
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