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16/12/2003 01:46
João Lira. Novas lembranças. Inventá-las, é como escrever um poema. Sem rima, sem métrica. Apenas liberdade poética. É puro lixo, ou pura virtude. Você tem medo do novo, pânico pelo mesmo, horror pelo ultrapassado. Espremido entre esses sentimentos, você corre em direção ao vazio, que você quer saber como é, antes de chegar lá. Você ri sozinho, imaginando que isso é impossível. Você ainda pensa em desistir. Depois você lembra que não deveria pensar nisso, que essa é uma idéia velha e idiota. Você chega no balcão e pede o mesmo café, na bandeja de porcelana barata e branca, para a mesma atendente, no mesmo horário. Mentira. Você está mentindo. Você não pede o café, ela apenas traz, e te cumprimenta pelo nome. Segurança, é o nome disso. Você gosta disso e vai embora satisfeito, olhando para a João Lira, com suas crianças e labradores, e se sente parte da cidade. Você desce a rampa, passa pela gradezinha na parte de baixo e segue pela calçada, como que entrando em um fluxo de pessoas que sabem para onde rir. Você ri, concluindo como isso é patético. Ainda é cedo demais, você só deveria chegar daqui a uma hora. Você poderia ter dormido mais uma hora, ou arrumado seu quarto, ou qualquer outra coisa. Mas você aproveita o tempo sobrando e anda mais um pouco, admirando o dia que começa, que forma cores fugazes, engarrafamentos vorazes e pensamentos... atrozes. Você ri, novamente: às vezes, a tristeza é a única coisa temos ao nosso lado, para rir das nossas piadas.
enviada por Ethan Green
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