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24/03/2007 17:59
Av.Beira Mar
Um arrepio. Você contrai fortemente os dedos dos pés, reagindo naturalmente ao arrepio que percorre a sua espinha. Seu rosto sua profusamente, intumescido e castigado pelo sol e pelo calor que torra a grama e espanta pássaros e bons pensamentos. O choque térmico ao entrar em um ambiente tão competentemente refrigerado provoca, além do involuntário arrepio, algum prazer, prazer aliviado e cínico, de engabelar a natureza, que forçodamente fica para trás, além dos vidros e das portas. Você tem impressão que uma impossível e pesadíssima massa de ar quente está ansiosa para invadir e aquecer por dentro esta imensa escultura de concreto e vidro onde você trabalha. Você olha e imagina vê-la espreitando, esgueirando-se, escorrendo pelas frestas da porta, pelo poço dos elevadores, ar escorrendo como água para dentro de um navio prestes a ser deglutido pela imensidão que é seu meio. Você planeja mal seu tempo. Vez por outra, tem esses momentos de tempo com pouco ou nada a ser feito, sempre fortuitamente aproveitado pela imaginação para dar corpo aos seus labirintos de imagens e dolorosas possibilidades. Seu olhar, perdido, vaga pelas amareladas folhas do belo jardim do entorno. Tempo que sobra, vida que escorre, vida que se esconde da realidade que abafa toda a sua fantasia de se re-conhecer.
Você suspira, lufada de ar que escapa de você, deixando seu peito um pouco mais relaxado, deixando você um pouco mais conformado. Você ouve apenas o ranger da estrutura da confortável cadeira de curvim preto onde você está sentado. A monotonia na qual se converge a paisagem já tão conhecida obriga, tange seu pensamento a dobrar-se sobre você mesmo. Você tem a certeza que não adiantará se esconder por muito tempo da realidade que envolve sua vida. Você sente, sente fisicamente, a relidade lhe forçar cada poro, ecoando em infinitas dobras suas falências e fraquezas, advertindo que é apenas questão, apenas capricho do tempo para que todos os seus temores e ridículas defesas cedam, e numa tormenta dolorosa, transforme você em simples e burocráticos registros na memória da alteridade. Tornar-se o dado dispensável, que você rejeita tão mesquinhamente ser e que, ironicamente, parece ser a coisa inexpugnável de você. Você estende seu braço, tocando com a mão o vidro. Uma lágrima inútil e nula se forma e você ouve o som do abrir-se da porta de vidro. Você varre apressadamente seus farelos para dntro. E fecha a porta. Um arrepio.
enviada por Ethan Green
27/10/2006 01:28
Rua do Teatro
Seus olhos parecem colados por um adesivo forte e impalpável. Pesam pelo menos algumas toneladas, enquanto seus ombros parecem corroídos por uma particular ferrugem. Poucos minutos após as cinco horas da manhã e seu corpo cansado se recusa a cumprir as promessas que a mente obssessiva fez em seu nome. Mãe dominadora, ela determina que você tenha o vigor que se vende pela publicidade das barras de cereais, consumidos com todo o prazer que flocos de arroz podem causar. Você cansado, você imóvel, você se sabendo corpo cansado e mente ditadora ao mesmo tempo. Quase nada mais. Você tem certeza que um dia, cercado de flores, será o primeiro. Por enquanto são as metas impostas, são as cobranças contínuas, as esperanças regurgitadas por uma infância mal-vivida que dão as ordens.
Você se levanta. Passos fracos, panturrilhas trêmulas, boca amarga. A manhã, ainda amarga, desperta por detrás do cinza do concreto, com suas luzes ainda frágeis e indecisos, com sua brisa ainda moça. A água fria lhe diz um bom-dia entediado, e você finalmente enumera mentalmente as tarefas e os passos que lhe aguardam na cidade. Você não quer. Você não está pronto. Mas você vai mesmo assim, sem, olhar o caminho, atenção apenas nos centenas de pares de olhos igualmente cansados que seguem em direção contrária.
A assustadora idéia de que a alteridade só pareça dar crédito aquilo que pode ser uma doença, mas que você vai se re-conhecer como modo de vida, como atributo de você mesmo, enquanto seus pulsos ainda estão abertos, vertendo as restantes esperanças no ralo do banheiro. Você, acostumando a invisibilidade dos olhos do outro, se pergunta se os atos extremos o re-velam de fato ou apenas agridem a covardia da alteridade, inebriada em sua mesmice pachorrenta.
Você sabe, você sabe que as tarefas se atropelam à sua frente, desviando sua atenção imediata do vazio do lado de dentro. Esporte, estudo, trabalho, amizades, convivências, dedicações, todos se enfileiram diante de você, tentando cegar-lhe a contemplação do escuro. E você se embebeda de luz, você estende suas mãos para a claridade, brinca com os dedos, e sorri. Momentos depois você fecha os olhos, e lágrimas surgem nas laterais, onde se encontram as trêmulas pálpebras, escorrem pelo seu nariz, amontoam-se na curva do queixo, espantadas com a força da escuridão do lado de dentro. Você olha para dentro, e não vê. Não há o que ver, há o não-preenchimento, a negação, o vazio. Virar a esquina da Ramalho Ortigão faz sua atenção se desviar novamente, rua cheia, calor, abafamento. A música que consegue escapar às janelas da escola é bonita, é suave, ainda que sem função. São pérolas jogadas ao abismo.
enviada por Ethan Green
29/05/2006 01:22
Rua Glauber Rocha
Santuzza,
Siamo alla fine di maggio e fa ancora un po' caldo. In questi ultimi
giorni ho visto crollare tutte le speranze che mi avevano sostenuto
durante l'estate. Mi sento prigioniero di una vita inutile a cui non
sono nemmeno capace di porre fine. Nemmeno la fede mi sostiene più: ho
scoperto l'inutilità delle preghiere e delle imprecazioni.
(...)
Você discorre sobre sua depressão, você desabafa com sua amiga
estrangeira. A distância fortalece a confiança, estimula a coragem de
expor as vísceras. Você tenta dormir, mas não consegue. Você escuta música, e a voz jazzista da sua cantora predileta lhe irrita. Você rola na cama, incomodado com cada caroço da velha cama. Você rola de um lado pro outro, incomodado com cada caroço da sua memória. Você sente suas forças esvaírem-se, como que um grande ralo as sugasse, e você se tornasse aos poucos só pele, só osso, só embalagem, sem conteúdo.
Cansado e ofegante, você se levanta depois de mais um pesadelo. Diante do espelho, admirando as olheiras fundas, arroxeadas e plenamente instaladas abaixo dos seus olhos, comprimindo para baixo o que você ainda julga ser um sorriso, o esqueleto de um sorriso.
Você tenta se lembrar do pesadelo. Sabe que nunca mais voltará aquela casa. A casa está à venda, e você gostaria de comprar alguns sonhos. Mesmo quando você já não era mais uma criança, e uma porção de meias-verdades já permeava suas falas, aquela casa ainda lhe fazia bem. Mas ela está vazia, e você, em algum momento de sinceridade, abriu mão dos laços. Deixou-os cair, e a poeira do tempo os cobriu. Hoje, são lembranças à venda. A chuva da depressão parece inundar cada cavidade do passado, escorre pelo presente e espelha qualquer idéia de futuro.
Ela parece ser mais forte que você, e seus ombros latejam por seu peso. E seus dedos latejam. E sua alma lateja, incessante, consumindo-lhe o ventre de dentro para fora. Definitivamente, não tem graça. A música acabou. A noite acabou, e o sol começa a se derramar sobre a rotina da segunda-feira.
Você toma um atitude corajosa e repete o do tocador de mp3. A cantora recomeça seu ofício. Faixa 1: Estrebucha, Baby
enviada por Ethan Green
22/12/2005 15:49
Para Eliane:
Que seria do meu caminho se aquela pedra não lá estivesse? Que será de mim, mergulhado em incertezas dilacerantes e fúteis? Longas conversas foram enredadas com fios muito parecidos com esses. Divagações sobre futuros possíveis em um presente que parece de mentira. Acho que nós nos entendemos porque reconhecemos no outro o mesmo olhar de dúvida sobre qual caminho tomar. Reconhecemos a mútua falta de talento na hora das escolhas e a completa predileção pelos espinhos, em detrimento das flores. Sonhamos juntos, sobre como a vida seria, se as flores surgissem por sob nossos pés. Ainda hoje é assim. Talvez mais maduros, talvez apenas mais acostumados com o tapete de espinhos. Talvez menos exigentes, talvez já senhores dos próprios caminhos. Mas, definitivamente, amigos. Amigos de espinhos e de flores, de sol e chuva. Espero ainda poder conter suas lágrimas, amiga minha. E que as minhas, quando brotarem, encontrem suas mãos como amparo. E os sorrisos?ah, os sorrisos! Eles se acham, deixemos, que eles se acham!
enviada por Ethan Green
17/11/2005 13:24
Av.Meriti
Enquanto o burburinho do shopping vai ficando pra trás, e seus últimos sons já se misturam com o novo burburinho, do exterior, do trânsito, você começa a pensar e pensar. Pensar sobre a vida, pensar sobre tudo, sobre o nada que permeia e preenche o tudo, cada átomo, cada quark, pensar e pensar. Nesse momento, você se sente invadir pelo medo das consequências de pensar, dos desdobramentos sucessivos que cada pensamento provoca em si mesmo, multiplicando-se em diversos outros, que por sua vez em nada diminuem a fúria de se reproduzir em muitos outros, em um expandir-se sem fim. Você pisa sem cuidado na calçada mal-cuidada, maltratata como toda calçada de subúrbio, esquecida como todo bairro de subúrbio, desprezada como tudo que não é cartão-postal. Você respirar pausada e sofregadamente, sentindo aflorarem aqueles pensamentos que vivem nos subúrbios do seu espírito, que você tange sistematicamente para as periferias da sua alma. Pensamentos não-queridos, não-desejados, não-festejados. Mas seus, vivos e presentes. Você se aproxima de dezenas de pessoas que se aglomeram em volta de um pequeno veículo e segue em frente, absorto da curisidade que a cena poderia lhe provocar. Inebriado pelas idéias quase que sempre esquecidas, e que, movidas pela teimosia que lhes é peculiar, lhe invadem a mente, você se permite sentar, olhar para o céu cinza e largar mão das amarras da racionalidade, e você sonha com tudo aquilo que não foi, não é e não será mais você.
É, não dá pra descrever, não dá pra visualizar, você não pode sequer imaginar que outras vidas possíveis você teria vivido se tivesse entrado nessa ou naquela bifurcação da vida. Buscar pela memória os pontos de separação dos caminhos faz parecer que em cada dia, o caminho se dividia. A cada momento, uma decisão. Em todo instante, tantas possibilidades. Depois de um tempo, parece que tudo foi uma reta, mas olhando de perto cada trecho, é possível ver uma infinidade de setas, indicações, advertência e avisos de outros caminhos. Claro, o mais importante não é para onde vai o caminho, você sabe que a ironia é que ainda que haja um destino final, todos morrem antes. O mais importante é o caminho. E tentar seguir em frente, marcando bem as pegadas para, se precisar voltar, saber por onde.
Então, você gira nos calcanhares, de uma forma engraçada e infantil, e sorri. Você volta para o metrô. Quando chegar em casa, você vai dormir.
enviada por Ethan Green
10/11/2005 00:50
Rua Teresópolis
"Alta noite já se ia,
ninguém na estrada andava
no caminho que ninguém caminha
alta noite já se ia
ninguém com os pés na água"
Olhar com atenção e curiosidade os registros deixados por outras pessoas, de outros tempos, é instigante e desolador. As fotografias esmaecidas dos velhos estudantes são retratos de uma totalidade assustadora. Você se perde ao repassar repetidamente as mesmas fotos, que no seu preto-e-branco que quase se resume na monotonia do cinza, vibram cores de um fulgor indescritível por trás das suas retinas. Pensar na fragilidade e na volubilidade do viver e do seu corpo físico faz você suar nas mãos e na testa. Pequenas e geladas gotinhas se formam acima das suas sobrancelhas, e você tenta disfarçar, secando-as com as costas das mãos, enquanto tenta, no mesmo movimento, espantar comparações mais perturbadoras. você se perde nas esquinas dessa mesma cidade, desse mesmo bairro de Santa Tereza, mas nessas fotografias do século dezenove, você se perde pelos olhos dessas pessoas em preto-e-branco que viveram esse carnaval. Todas, em suas fantasias de Rei, de pirata ou marinheiro, acompanhavam o carnaval e toda sua vibração. Você repousa o livro sobre suas coxas, pulsos cansados, olhos sôfregos de focar os mesmos pontos do sorriso deste ou daquele folião que já não mais existe, contemporâneo de tantos outros que também não estão, para quais, seja carnaval ou não, reis ou não reis, tudo é simplesmente negação. Você se perde pelos olhos dessas pessoas, acompanha o vinco que desce pela lateral dos narizes e contorna os lábios, emoldurando sorrisos de puro sonho, de puro deleite, de puro prazer. Sorrisos que são por si só, expressão da ansiedade e da sede de vida de todos eles. Todos estão ali vivos e para viver. Todos pensam se um dia serão de fato reis. Mudarão o mundo. Deixarão seu legado para a história da humanidade. Por trás de um punhado de sorrisos, as dúvidas de qual carreira escolher, se devem se casar, se irão dormir na beira da praia, embalados novamente pelos cafunés da amada, se irão ganhar o anel de noivado, se irão comer aquele delicioso bolo de laranjas, logo mais, depois da folia. Eles sorriem e sonham, porque estão vivos. E viver é sonhar com o que será do amanhã, até que este já não mais haja. Todos os sorrisos e sonhos que foram repletos de cor e vida, hoje são lembranças nas fotos em preto-e-branco daqueles que já não mais são. Alguns nem registro de si deixaram, outros nem mesmo uma lágrima mereceram, quando deixaram de ser e de sonhar. Mas sonharam. E sorriram, como sentiram que deveriam sempre fazer. Você, olhos ainda fixos na velha fotografia, sabe-se perecível, insignificante e breve. Sabe que seus sorrisos, tão marcados em tantas fotografias, escondem todo esse apinhado de sonhos e vontades que se apagarão bruscamente e perderão todo o sentido. Mas você, enquanto contempla o velho casario, cenários mudos de gerações de sorrisos, entende que os sonhos não se escondem no sorriso, eles o formam, eles o mantém. E o sorriso, por sua vez, multiplica-se no rosto de quem o vê. Você, perecível e de existência fugaz, carrega o mesmo sorriso daqueles que tanto tempo. E o levará com você, até não poder mais, e outros sorrirão. Você entende que ainda que sua existência não signifique absolutamente nada, você ajuda a transportar e a manter vivo o que é eterno dentro de todos nós, o sonho. E a manter em prática a manifestação visual de sonhar, o sorrir.
enviada por Ethan Green
23/09/2005 00:43
Av. Augusto Severo
Parece que existimos, envelhecemos, decaímos e morremos tentando recuperar, reanimar, reviver os sentimentos, sensações e virtudes que possuímos quando somos crianças. As crianças são belas, de uma beleza natural e encantadora; são puras, de alma, ímpetos e índole; são sinceras, em seus sorrisos francos e em suas lágrimas instantâneas; e, finalmente, as crianças pouco temem o que não conhecem, preferem o sabor da descoberta à morosidade do já visto. Bens abstratos que a maioria de nós almeja, e que alguns parecem ter o dom de manter acesos.
enviada por Ethan Green
16/08/2005 17:37
Rua da Alfândega
Cortei o dedo, quando você se foi / e ainda não sarou / só quando você voltar, meu amor / Aí eu paro de sangrar
Um de repente, e você acorda. Na verdade, não tem certeza que está acordado. Você detesta essas noites de semi-vigília, onde cada nesga do reconfortante sono é perturbada por um sem-fim de sonhos mal-ajambrados. Sonhos sobre sonhos, sonhos onde você sonha que dorme, sonha e acorda. Por isso, a dúvida se está acordado de fato agora. Você tenta concentrar-se em algo supostamente concreto, o teto, a porta do quarto, o edredon macio e calorento que cobre seu corpo. Nessa tentativa, você adormece e imediatamente mergulha em outro sonho, onde seu quarto já não é mais o mesmo, mas onde você ainda tenta acordar. E toda essa tortura, todo esse embate da vigília com o sono, do inconsciente com o consciente termina, bruscamente, com o pertinente e irritante som do despertador. Você se arrasta, relutante, até ele, mais cansado que quando decidiu deitar-se no dia anterior, até finalmente alcançá-lo e dar fim ao ensurdecer que o aparelho gera. Com extremo esforço e incompreensão, você se senta, respira e olha em volta de si. Você vê aquele ambiente tão conhecido, tão acolhedor e familiar e ainda assim não se coforta. Com as mãos sobre os olhos, como que tentando não ver algo que está diante de você, você chora copiosamente. Soluços surgem aos borbotões do seu peito, provocando um misto de dor e cansaço no diagrafma e nos pulmões. Você sente seu nariz escorrendo, o rosto inchado de sono e choro e pensa em não se mover. Você gostaria mesmo era de acordar de novo, você sabe. Que esse ainda fosse um sonho. Você não quer repetir a rotina do banho, do pão e leite engolidos com o tédio da fome diária, do vestir-se sem olhar o quê, do sair apressado pelas escadas escuras desse prédio velho. A rotina de ver o sol por alguns segundos antes de precipitar-se nos subterrâneos do metrô e de ter mais alguns segundos de sol, como um gesto de piedade divina, antes de mergulhar no subterrâneo do prédio comercial onde você trabalha. Você não quer repetir a rotina, mas você não consegue, com sua mente embriagada de sono e cansaço, imaginar outra alternativa. Acordar, estudar, trabalhar e entorpecer-se da rotina parece ser o caminho natural, até que lhe caiam os cabelos, as forças e até que você mesmo caia, para, enfim, dormir.
enviada por Ethan Green
16/07/2005 21:47
O momento em que desfrutamos de total autarcia: o momento do sonho. O mundo material faz-se apenas mais um ingrediente da realidade pessoal, onde temos certeza de que corpo e alma, matéria e espírto são a mesma coisa, e parte de uma mesma coisa, ainda maior, e que podemos fazer o que quisermos.
Sonhar é um direito inalienável. Irrevogável. Isento de interferência . Mesmo na mais triste situação, é impossível negar o direito de acalmar a mente e sonhar, desejar, vislumbrar um momento ideal de paz e serenidade.
Muitas vezes, tentamos limitar os sonhos às possibilidades das realizações futuras, para evitar o sonho idealizado, que nos leva , quando de olhos abertos, à desilusão.
Mas, um dia, nos surpreendemos: quando a realidade nos arrebata para além do sonho, e nos presenteia com uma alegria ainda maior do que já havíamos conseguido idealizar. É o momento de serenar, e, agradecidamente, se entregar às possibilidades de viver um sonho, acordado.
Você, hoje, acordado, vive um sonho.
enviada por Ethan Green
22/04/2005 17:29
Praça Ênio
A memória sempre nos prega peças e, vez por outra, nos presenteia com comparações ricas em nuances, detalhes apurados como arabescos, filigranas em um documento antigo. Você senta para observar melhor os detalhes da praça, permitindo que cada mudança rime com o formato que este lugar tem em sua memória. As discrepâncias do novo casam aos poucos com os antigos formatos, cavados pela rotina da passagem diária, em torno das 6:50 da manhã. Por anos e anos você passou por aqui, até que cada irregularidade desta praça malcuidada estivesse gravada como um arranhão em seus neurônios. Parece que hoje, ao passar atento por aqui, Você pode reviver determinadas emoções, angústias, bem e malquereres que povoaram seus pensamentos àquela época. Tempo de juventude mal-brotada, infância teimosa, que se arrastava e invadia os tempos precoces do ginásio. Os pequenos sonhos de amor, as pequenas angústias do novo, que tremulavam as frágeis pernas sob pesadas mochilas. É bom estar apaixonado. Você sabe disso. Naqueles dias, pelo mundo desconhecido que se desvelava aos borbotões. Hoje, pela sutileza do beijo demorado, do toque despretensioso, do carinho sincero. Naqueles dias, você não imaginava uma só vez que seria capaz de viver as atrocidades que hoje são banais, os impropérios que hoje correm de boca em boca, a lascívia em que vivemos todos, perdidos entre o sonho juvenil do casamento e a febre adulta de saber-se degenerado. Você não imaginava que sobreviveria a murros e desejos de morte. Não imaginava que o abandono seria mais doído que finas agulhas por debaixo das unhas. Não sabia que apenas a companhia de si mesmo era suficiente para odiar todos os outros. Esta praça era como ainda é hoje, maltratada, suja e mal-amada. Habitada por maus elementos e maltrapilhos. Ponto de encontro da juventude falastrona, que corre apressada atrás das bolas de futebol, como que correndo do futuro incerto. Dos casais apaixonados, que em seus beijos sôfregos ignoram o azedume do abandono. Dos inocentes que levam seus donos para passear na manhãzinha ainda turva de sereno. Você, olhos de boa-vontade, habituados a um certo bom gosto e alguém de bons modos, prefere ver poesia, nas mazelas de ontem, tão bem rimadas com as cicatrizes de hoje. Você levanta e o sol parece demorar-se em suas sombras, as mesmas sombras de sempre, que protegem a mesma praça e o mesmo Você de sempre. Assustado, apaixonado e vivo.
enviada por Ethan Green
14/04/2005 15:33
General Venâncio Flores
Desde criança, cobiçamos aquilo que vemos, que nos é aproximado desta ou daquela forma. Aquilo que sabemos, mas não vemos; vemos, mas não tocamos; tocamos, mas não provamos; provamos mas não mordemos. Cobiçamos e cultivamos nossa cobiça, nosso desejo, tornando-os fortes, vigorosos e onipresentes em nossos pensamentos, perigando chegar o momento em que confundiremos objetivo, caminho e futuro com nossos mais crus e insensatos desejos. Diz-se então "está cego" ou "parece criança". Você sabe estabelecer os limites, sabe enxergar os parâmetros que delimitam desejo e vontade, impossível e possível, palpável e onírico, sensatez e loucura. Você consegue ver as diferenças sutis e translúcidas entre os sonhos nos quais você mergulhou de cabeça e onde descobriu os muitos significados da idéia de desalento e as conquistas reais, batalhadas e festejadas, igualmente desalentadoras. É um orgulho, um privilégio, um dom, raro e precioso, conseguir racionalizar e estabelecer relações lógicas entre tais abstrações. Tudo inútil. Você é viciado nos mesmos erros e conceitos, tão ligados e dependentes do prazer carnal e das descargas de serotonina da gargalhada, do suspiro, do gozo. Você esquece, faz-se de ignorante da lógica só pela sensação de arrepio causada pelo carinho espontâneo.
Você suspira, ao perder o sono no meio da noite, e constrói toda essa elucubração sobre pensamento, lógica, sensação, desejo e vontade. Você cobiça entender essa sensação de querer e a deseja. Suado, excitado, sexualmente excitado e repleto de vontade, de desejo, de cobiça e outras primariedades, você deixa que a água gelada do chuveiro corra pelo seu corpo e arrefeça tantos hormônios. Você lembra da hora da aula, tão cedo, tão urgente, tão necessária e acalenta a criança ansiosa, que teima em berrar entra suas têmporas. Você se seca, veste-se, arruma a bolsa, pega os livros. Antes de sair, diante da porta, você hesita. Sabe que nunca, nunca conseguirá calar por muito tempo a criança feita de desejos que divide seus pensamentos com o velho eremita.
Hoje os livros ficarão no lugar. É hora de brincar. Brincar de ser feliz e acreditar-se feliz. Tentar. Por um segundo, que seja. Mas não "de mentirinha". De verdade, como só as crianças sabem fazer. Você bate a porta, e vai a praia.
enviada por Ethan Green
08/04/2005 11:11
Rua das Acácias Abandono. Fome. Necessidade. Paura. Depois de horas de lágrimas e soluços durante a madrugada, você hesita em admitir a idéia de faça parte da maioria que "ri quando deve chorar e não vive, apenas agüenta", mas a prática do dia-a-dia é clara e sem pudores: você não encontra nada que lhe dê prazer, satisfação ou mesmo um simples motivo de acordar. A vida goteja marasmo sobre sua cabeça, enquanto você precisa trabalhar, pagar contas, estudar para poder pagar outras contas e não envelhecer miseravelmente. Você questiona a obrigação de comer todos os dias, duas vezes por dia, a comida que muitas vezes parece insossa, mas que é muito melhor "levante as mãos para o céu, meu filho " que simplesmente não tê-la. Você se permite a inutilidade de chorar copiosamente, ainda que tentando manter um silêncio civilizado, para não perturbar seu amigo que dorme no quarto ao lado. Você se permite chorar, mas reclama aos deuses que alguém possa ao menos saber que você chora, porque chora. Talvez seja mesmo pedir demais, isso nem mesmo você sabe. Medo. Solidão. Abandono. Você cultiva essas sensações, maximiza-as para acostumar seu espírito para o futuro que você consegue vislumbrar de onde você está.
enviada por Ethan Green
24/02/2005 11:54
Dor pode ser uma palavra escrita meio que por pressa, e que por isso, não tenha uma rima que completa o verso; e fica ali suspensa, esperando que alguém a resolva.
enviada por Ethan Green
30/01/2005 17:42
Rua D'Ajuda. Pequeno e quase invísivel este caminho, espremido entre os
prédios faraônicos e o trânsito sociopata do centro. As últimas semanas
foram todas assim. Intangíveis, esquecidas entre a ansiedade de um novo
tempo e a confusão de tantas pendências. Você, algoz-mor de todas as
cobranças, é implacável e desperta no meio da madrugada com pensamentos
cáusticos de auto-crítica e dúvidas sobre o incerto futuro que você
constrói a cada dia. Você se debruça na janela, parapeito molhado, não
para de chover desde a manhã. A cidade dorme, preguiçosa e cansada e
vc, cansado e insone, observa os efeitos do tempo sobre os seus sonhos.
Seus sonhos hoje são menores, simplórios e de curto alcance. Não
significam muita coisa, além da obrigação humana de considerar-se um
sonhador para alegar que continua vivo. Você adota carinhosamente os
sonhos de outras pessoas, ou o que elas desejam pra você. É simples e
funciona. Vou fazer isso, conquistar aquilo, batalhar outros. E todos
seguem seus caminhos. Seu sorriso e suas palavras são tão importantes
quanto as marquises da Rua D'Ajuda em dias de chuvarada como esses. E,
como tudo, questão que o tempo também resolve. O tempo bom, o sol e a
brisa dessas tardes agitadas do centro.
enviada por Ethan Green
11/11/2004 18:53
Clarice Índio do Brasil Nesses dias, escurece tarde, e você tem mais tempo para tentar perceber, ainda que superficialmente, os sentimentos, alegrias, prazeres e dores que parecem emanar das esquinas e recantos da cidade. Você já não sente mais falta dos seus próprios sentimentos, tanto tempo que você se tornou inábil de produzí-los, tanto tempo que você já afundou no lamaçal da insensibilidade e dormência. Você sente o cheiro das sentimentos alheios, e já não lamenta suas faltas. Você se sente uma dessas velhas árvores que cerceiam a esquina com a Muniz Barreto. Grandes, fortes e serenas, cobertas de ervas daninhas.A tristeza e a desesperança já cresceram tanto, e se enraizaram de tal foram no seu dia-a-dia, que você já não mais distingue quando é um dia de sol ou um tormentoso dia de tempestade. Você sente a anestesia que a conformidade lhe trouxe. Você senta aos pés de uma dessas velhas árvores, que já não produz mais brotos, só degenera e serve de alimento aos insetos e às trepadeiras. Você se entrega. Que venham os vermes.
enviada por Ethan Green
28/10/2004 09:40
Beco do Mota Uma mistura de pão, carne queimada, fumaça de motor e urina forma o coquetel de aromas que empesteia o ar. O Velho casario que emoldura esta pequena viela já deve, um dia, ter sido muito bonito. Ou tentado ser, quando dos seus projetos. Você acha que faz falta projetar tristezas para, quem sabe, ser surpreendido por uma alegria. Seria realmente interessante, já que o contrário é tão corriqueiro. Calçadas quebradas e sujas se sucedem sob seus pés enquanto você procura qualquer local menos repulsivo para matar a sede e diluir pensamentos tão estranhos. Você pede uma garrafa de água e um copo. Desiste de usar o copo e se senta em uma velha cadeira de metal, ainda verde, com um logotipo de marca de refrigerante de guaraná pintado no encosto. Velhas festas de aniversário, cada vez mais desbotadas em sua memória, com seus doces, bolos e guaranás. É, devia ser bom. Alguma coisa boa acontecia durante aqueles dias. Hoje é diferente. Hoje você se levanta, ainda com sede e cansaço e segue pela Rua do Matoso, cansado e sozinho e respira fundo, sentindo que seu corpo já não é mais o mesmo, e que sua mente é outra, estrangeira, desconhecida e estranha dentro de si mesmo. Que o que antes era querido, seu e doce acabou. Hoje você é o espelho triste da alegria que um dia você mesmo desejou, diante de uma vela de aniversário.
enviada por Ethan Green
27/10/2004 17:45
JARDIM
Alguém diz:
"Aqui antigamente houve roseiras"
Então as horas
afastam-se, estrangeiras,
Como se o tempo fosse feito de demoras
D.Sophia de Mello Breyner Andersen
enviada por Ethan Green
11/10/2004 10:42
Praça Paris. A infância para você é como um filme que você gosta, quer contar para alguém, mas não se lembra de quase mais nada. A barulhada do centro fica para trás, você diminiu o passo, para sentir o clima úmido e embolorado da rua da Lapa. O cheiro de escapamento de caminhão com pipoca parece não incomodar os habitantes locais, sejam bípedes ou quadrúpedes. Você raspa o fundo do tacho da memória atrás de velhos perfumes, velhas cores e sabores de um tempo de ingenuidade e espanto. Você estupefato, imaginando as maravilhas que os livros contavam, que a TV recriava, e que sua avó enchia de estórias e detalhes fantásticos. Você curioso sobre o passado, seduzido por um mundo que não existe mais. Obras faraônicas modificaram toda a estrutura da cidade e você chega a ser capaz de sentir saudade daquilo que você só viu em sua imaginação. Grandes avenidas, palácios, parques, morros, casas, detalhes, arabescos, fontes e chafarizes que emolduraram emoções, vida e morte de milhões de pessoas que vagavam por essas ruas antes de você. O perfume da terra molhada recria um clima de tarde de sábado. Você se apoia na amurada da glória, desce os gentis degraus que outrora levavam seus passantes ao mar e segue lentamente, entre mendigos e domésticas apressadas, até a praça. Você gostaria de andar mais um pouco e ver, logo ali naquele banco da direita, os casais que um dia ali namoravam, o bicheiro que disfarçava seu trabalho ou o inesquecível sambista que naquele mesmo banco desistiu da vida e tomou uma dose fatal de formicida com guaraná. Na impossibilidade de ver qualquer cena desse passado, você se senta , olha em volta e canta um velho samba-canção, antes que a praça também os esqueça.
enviada por Ethan Green
29/09/2004 17:43
Melo Matos Você imagina como seria um dia, um só dia, longe do zunir das motocicletas e do estardalhaço dos carros de som. A cor do céu ainda é indefinida, os pássaros recomeçam sua repetitiva rotina de cantos e assobios e a expressão de sono e cansaço está estampada em todos os rostos que passam por você nesta manhã tão comum de Setembro. Comum, inexpressiva, cansada e tediosa. Você sente o chão como se ele se movesse e você fosse perene e imóvel. Você fecha os olhos e sente a brisa que escorre das árvores, na esquina da Alzira Brandão, como se fosse bálsamo de tranquilidade, reduzindo o ritmo de seus passos e invadindo seus pulmões, cobrindo o medo e aliviando a inconformidade. Você, por alguns instantes, deseja ficar ali, integrar-se ao balanço repetitivo e sincronizado das copas a disputar um lugar ao sol. O barulho do trânsito é o único que consegue evocar em você a lembrança de estar no meio do caos. Você respira o ar poluído da Haddock Lobo e mergulha no turbilhão de fuligem, pó e angústia de mais um dia.
enviada por Ethan Green
11/08/2004 00:08
"E ela curte a solidão do 8º andar, na mesa posta, um só copo e ao lado um só talher."
enviada por Ethan Green
29/06/2004 21:32
Alameda 30, Dos Beija-Flores. A música é mais que prazer, diversão, passatempo ou terapia. A música é hoje um expurgo das dores que assolam o espírito. Por isso você canta tanto. As canções povoam sua mente quase todo o tempo, caminho desesperado de escapar do turbilhão de pensamentos dolorosos e desejos auto-destrutivos. Você imagina se haveria uma maneira de esse prazer remanescente ser algo ainda melhor. Você acredita que não, e teme sonhar com qualquer coisa, já calejado dos resultados de algo tão perigoso quanto sonhar. A música se tornou uma satisfação única e indescritível, sobrevivente de um mundo presente de silêncio e agonia. Não que antes você vivesse muitos prazeres, não, de forma alguma. Sua vida nunca foi, digamos, generosa em sensações que para outras pessoas são razão de tantos comentários. Você não viveu os prazeres que para a maioria dos mortais são razões para matar e morrer. Você mal consegue distinguir como seriam tais prazeres, de tão inebriado que tenta viver neste labirinto de torpor e de sonhos barbitúricos. Você canta, vibrando suas moléculas em ritmos ora acelerados, ora monocórdicos, e tenta assimilar, por instantes, ritmo. Que é o que parece faltar, no seu peito, no seu coração que não se sente bater, quando se pousa a mão por sobre o peito e que mal se sente, na quietude das intermináveis noites de dormir. Sambas e marchas de um tempo que você não viveu lhe inspiram a alegria e a ingenuidade de pessoas que você não irá conhecer, e que também não seriam compreendidas, caso tentassem viver em dias como os de hoje. Não, você definitivamente não busca ser compreendido. Não se esforça para isso, quando faz percussão com as falanges dos dedos. Você busca algo que ainda desconhece, que você não sabe o que é, apesar de saber, com força e domínio, que esse algo, seja o que for, não está por perto.
enviada por Ethan Green
20/06/2004 20:11
Humberto de Campos. Inverno. Um operário maneja habilmente sua britadeira, abrindo uma pequena cratera no chão. Enquanto os curiosos acotovelam-se para assistir, ele habilmente salta dentro do buraco, para realizar a tarefa que o chamou. Você sabe que daqui a uns dois dias, não haverá nem lembrança do buraco. Obras na Zona Sul são rápidas, além de plásticas. Não deixam cicatrizes nas ruas. Você olha para as suas, tão presentes, latejantes. Você admira a mais nova. E sente que precisa de mais uma. Você arrisca. Como um jogador de xadrez neófito frente a um grande mestre (nos tempos que os grandes mestres de xadrez ainda eram humanos), você arrisca. E sente medo ao arriscar. Gotas geladas de suor brotam dos poros em sua testa, e as mãos traem qualquer imagem de segurança, tremendo e tamborilando sobre a mesa um ritmo frenético e taquicárdico. Sua visão de futuro parece desdobrar-se em modestas possibilidades que, ainda assim, parecem gigantescas diante da sua visão diminuta de si mesmo. Você reluta antes de tomar qualquer decisão banal, mas não pensa duas vezes antes de alterar o ritmo de processos vitais. Descobrir-se inimigo de si mesmo é o fim de um processo longo e doloroso de auto-análise. De agressão a si mesmo, esbofeteando-se com verdades, com fatos, com dados. Com precisão matemática, você conclui que é possível ser muitos. Muitos de você mesmo, protegidos por uma falsa imagem agradável e falante, alegre e otimista, esperançosa e vibrante. Alguém de quem as pessoas gostam de estar perto. E você se esforça para ser esse alguém. Investe tempo, energia, estudo. E, por alguns momentos, convence-se que alcançou a meta. Passando quase todos os dias na esquina da Humberto com a Cupertino, você sabe que bastam poucas horas de chuva para encher tudo de água, e a imagem de lugar bom de se viver ir, literalmente, por água abaixo. Você sabe que bastam poucas lágrimas para você ser você mesmo.
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20/05/2004 18:30
"Não dá para me enganar à constatação brutal de que não importa quanto você se mostre entusiasmado, não importa a certeza de que caráter é destino, nada é real, passado ou futuro, quando a gente fica sozinho no quarto com o relógio tiquetaqueando alto no falso brilho ilusório da luz elétrica. E se você não tem passado ou futuro, que no final das contas são os elementos que formam o presente todo, então é bem capaz de descartar a casca vazia do presente e cometer suicídio. Mas a massa fria entranhada em meu crânio raciocina e papagaia, 'Penso, logo existo' (...). Para que serve a boa aparência? Garantir segurança temporária? De que adianta o cérebro? Para dizer apenas 'Eu vivi e compreendi'?"
Sylvia Plath
Sylvia Plath nasceu às 14:10h do dia 27 de Outubro de 1932, em Boston. Se suicidou em 1963, aos 30 anos.
enviada por Ethan Green
15/04/2004 07:05
Rainha Guilhermina. Seus músculos contraídos, nervosos, tesos, rijos e poucos confiáveis, mostram-se beirando a exaustão. Seus membros tentam lhe convencer a parar, a deitar, a aceitar sua falta da vocação para tais esforços físicos. Os pulmões aceleram, bombeiam lufadas e mais lufadas de ar, provocando um som pesado, carregado de cansaço e esforço. Você ainda resiste, hesita em se entregar ao descanso óbvio e iminente. Você tenta resistir mais alguns segundos, segundos sofridos, cada um demorando eras e eras glaciares para terminar. Você precisa resitir. Você sente que sua vida depende disso. Não. Sua vida seria muito pouco, seria melhor desistir. Sua sanidade, ou o que resta dela, é o que está em jogo. Se você se levantar e decidir ir embora, alcançar a rua e acalmar suas desritmadas pulsações, você será, definitivamente, o resto daquilo que você sempre repudiou. Não, ainda não. O suor escorre pela sua testa, enquanto músculos que você nem imaginava que existia tremem, provocando um tremor coletivo, que percorre todo seu corpo e impede qualquer outro tipo de pensamento senão o desejo de se movimentar. Você desfaz na hora certa, e se sente invadir por um orgulho raro e fugaz, uma sensação de poder, força e domínio. Claro, isso dura pouco. Um intervalo e é o momento de outra permanência. Você sente o ar invadir cada parte dos seus pulmões, enquanto percebe que a mais difícil permanência não é do corpo, é a do pensamento, ácido, sempre provocando queimaduras dolorosas e cicatrizes vitalícias em seu espírito.
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23/03/2004 18:59
Borja Reis. Você vê os urubus sobrevoando o céu, voando em elipses ordenadas e se pergunta: "o que estará morrendo agora, meu Deus?" A esperança, que a todo canto diz-se ser a última, já fede, jogada em uma vala escura e coberta de pesados fardos de desalento.
Você não gosta de citações. Pastar sobre as palavras mortas como um animal carniceiro parece degradante e intelectualmente pobre. Mas você está errado. A capacidade criativa não deve ser utilizada para dar prazer ao criador. Deve ter a utilidade ensinar e trazer claridade aos velhos caminhos, diariamente trilhados por novos viajantes, que crêem ser descobridores dos mesmos sentimentos.
"O eterno insatisfeito esfalfa-se pensando,
Questiona livros que não existem,
Não sabe o que deseja,
Não sabe o que o incomoda,
Não sabe o que o agrada.
Bem faria ele procurando o convívio dos outros!
Recebido então no seu círculo,
Uma boa palavra não tardaria,
No tumulto da conversa,
Qual um raio que brilha,
Perfurando o labirinto do coração
E iluminando suas profundezas"
Viagem nas províncias da Franças, de Thummel, Tomo 1, p.73.
Você sente como se estiesse mergulhado em uma densa e profunda piscina de solidão, por onde penetra, cruelmente, apenas o oxigênio necessário para que você subsista e imagine como seria sua vida, se tivesse energia de mover-se, de arrancar essa cobertura velha e incômoda e partir, leve e desprovido de cargas, para o desconhecido.
Você agradece aos amigos, verdadeiros feixes de luz que atravessam suas barreiras, de forma repentina e carinhosa, trazendo lufadas de ar e vida para seu coração.
enviada por Ethan Green
03/03/2004 01:12
Travessa do Ouvidor. Você está pelo menos duas horas adiantado, e resolve se sentar um pouco. Está quente, calor mesmo, abafado como deve ser o clima de uma floresta minutos antes da chuvarada. Você sente o cansaço subir pela suas pernas, e o desânimo tomar de assalto seu espírito. As dores se confundem, e você é incapaz de distinguir onde uma começa e onde a outra encontra suas causas. Você tem vontade de dormir, de sumir, de não pensar, de inexistir. Viver é cobrar-se. Cobrar-se por realizações por ser e, pior, por estar feliz e satisfeito com nossa ração e nossa cota de sono diária. A rotida e o tédio entorpece, inebria, vicia: você só sabe viver assim. Você quer outro modus vivendi, dinâmico, bravo e brilhantemente ambicioso. Bobagem. Você mergulha em um universo de desejos que nunca serão atendidos, vontades que serão devidamente esquecidas e sonhos que ainda resistem por pura crueldade divina. Você chama de medíocre e triste a estrada que se revela aos seus olhos, mas só lhe restam os impulsos de prosseguir, de olhar para o futuro com a resignação dos budistas e a ignorância dos fundamentalistas de qualquer crença. Antes que o suor comece a ser incômodo, você se levanta e se permite distrair-se, deixando o vento, os sons ritmados e a pulsação da Rio Branco arrebatar-lhe para o silêncio do não-saber coletivo.
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19/02/2004 01:15
The fears we know
Are of not knowing. Will nightfall bring us
Some awful order - Keep a hardware store
In a small town... Teach science for life to
Progressive girls - ? It is getting late.
Shall we ever be asked for? Are we simply
Not wanted at all?
W.A.Auden, The Age of Anxiety
Esse poema, do poeta irlandês W.A.Auden, diz muito sobre viver vidas que parecem não fazer( ou de fato não fazem) sentido. Depois de ler duas traduções que não correspondem ao original em profundidade e essência, desisti e decidi deixar em inglês mesmo
enviada por Ethan Green
19/02/2004 01:09
Professor Gastão Bahiana. "É de manhã bem cedo, a rua desperta / Na primeira hora, sinto falta de você" Você cantarola a música do Pato Fu enquanto o dia ensaia começar. Luz do sol ainda tímida, espreguiçando-se por entre as nuvens, que se refugiam nas montanhas e formam um translúcido cachecol em volta da Pedra da Gávea. Você vê a Lagoa do alto, e de lá ela parece um espelho, espelho mágico refletindo as mesmas nuvens, que nele ganham novos movimentos, novas nuances, novas camadas de cor e de textura. Espelho emoldurado por uma ou duas colunas de trânsito feroz, fumaça e muita pressa. De onde você está, aquilo tudo lembra um carrossel: todos girando, acenando e passando sempre pelo mesmo lugar. Mas não, não estão confraternizando. Todos parecem decididos e cientes do que fazem e para onde vão. Exceto você. Você anda lentamente, passos largos, zigue-zagueando entre o meio fio de paralelepípedos grossos e os muros altos dos prédios luxuosos que margeiam a Lagoa. Todas as pessoas, com seus refrigeradores de ar e carros potentes, parecem saber a que vieram. Você ainda não sabe pra quê foi chamado. Qual será a razão de estar-aqui, de estar consciente, de acordar, de comer? É, então, por não ter as respostas, que você pega mais um desvio: está cedo, você ainda tem tempo até sua aula... você pode andar mais, ainda mais, um pouco.
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11/02/2004 10:32
Travessa dos Tamoios. Inveja. Ambição. Prazer. Cobiça. Luxúria. Pulsações presentes em todos os corações, dos mais franciscanos aos mais sinceros. Você se força a aceitar a demora dos acontecimentos como algo natural, mas amaldiçoa o tempo, porque o futuro é incerto e o passado é errado. Você apregoa que sofrer pelo futuro é, então, anti-natural. Você pede um café puro e forte, sem nada para acompanhar. Você reinvidica o direito de viver o presente, um dia de cada vez, um minuto de cada vez, um sentimento de cada vez. Mas você mesmo se atropela, em advinhações vazias de quais serão as consequências de cada pulinho que você dá, de cada opinião vazia que você emite. Está chovendo, suas pernas doem e você ainda está longe de onde, daqui a uns tantos minutos, você descansará e tentará esquecer a incerteza do amanhã. Você sente que gosta da sensação não possuir nada, de não possuir bens, de não ter muito a perder, seja para alguém ou para alguma manifestação da natureza. Agora que o café já cansou de fumaçar, você decide bebericar, aos poucos, goles tímidos, sentindo a língua reagir ao líquido morno e adstringente, e pensando o que você já tem. Você tem seu corpo quase saudável e sua mente quase sã. Quimera. O que você quer é um corpo que esbanje viço e uma mente que lhê dê palavras na ponta-da-língua, como se você vivesse em um seriado americano. Você quer se perder no aeroporto e desistir de ir para Paris. Você quer poder pedir profiteroles pelo telefone, em um dia cinza, de chuva cinza, como hoje. Você quer sexo. Você quer saber fazer sexo. E gostar disso. Você quer ser admirado pelo que pensa, talvez temido pelo que diz. Você ainda sente o restante do amargo do café pela garganta, quando termina de pensar e conclui que lutar por tudo isso é mais imbecil que viver assim, sem ter. Da próxima vez, você decide, com fervor: vai usar mais açúcar.
enviada por Ethan Green
05/02/2004 02:11
Moncorvo Filho. Talvez seja verdade, quando dizem que a beleza está nos olhos de quem vê. Talvez não. Você olha a rua suja, repulsiva até, malcheirosa em alguns momentos e claramente insalubre, todo o tempo. Mas até o lixo tem seu lugar. Geralmente tentamos fingir que ele não existe, na nossa ilusão Kitsch de um mundo asséptico, cheiroso e brilhante, como comerciais de creme dental. Tentamos negar que somos nós mesmos que produzimos, tal como Deus, toda nossa sujeira, à nossa imagem e semelhança. Produzimos dejetos, lixo, gases, manchas, mágoas, feridas, nódoas e dores por onde passamos. Poluímos o ambiente que vivemos e tentamos, em vão, fazer com que nossos rastros pareçam limpos e nossas atitudes, sãs. Você pensa nisso enquanto caminha uns poucos metros, a passos largos, e se afasta da Pça da República, pontinho verde no meio da poeira do centro. Você lembra de como é difícil limpar as mágoas do passado, tão arraigadas que parecem de nascença. É hora da faxina.
enviada por Ethan Green
26/01/2004 01:43
Teixeira de Melo. O asfalto escuro, sob o céu escuro, não pode prever o que está para acontecer. Você espera por alguém que você não conhece, e não entende porquê. Há muito que você já perdeu o medo de conversar com pessoas ainda estranhas, ainda que isso, em tese, represente algum perigo nos dias de hoje. Não é medo. Você está exausto, depois de um dia de trabalho. Suas pernas doem, e sua coluna clama por descanso, enquanto você tenta buscar uma posição minimamente confortável, na estreita faixa de metal, que chamam de banco. Os minutos se arrastam, enquanto você observa as varandas, que alternam a solidão de lâmpadas apagadas e cigarros acesos e festas com música alta. Depois de algum tempo, ele chega, respirando aos golfões, se recuperando de uma caminhada forçada. Algumas horas, muitas risadas e muitas histórias depois, você vai pra casa, cansado e feliz, feliz de saber que as amizades são assim, brotam como estrelas cadentes na vastidão do escuro.
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19/01/2004 01:52
Rua Jangadeiros. Sua pele reclama da agressão da toalha, áspera de tão seca. Você se seca pensando o quanto você anda sensível nos últimos tempos. Você sente cada imperfeição ao redor ferir você, mas já não tenta mais se protejer de tudo. Você agora se arrisca. Talvez isso seja parte de tornar-se adulto. Ontem você acreditava em amor eterno, hoje você quer que ainda exista amor, quando amanhã chegar. Você veste uma roupa qualquer, escolhida não por falta de vaidade, mas porque você quer escolher o mínimo possível de coisas. Você bebe um copo de água devagar, antes de sair, sentindo o líquido tornar-se parte de você, enquanto cresce a vontade de você se tornar parte de qualquer outra coisa. Você quer esquecer o passado. Principalmente as alegrias, que formam as lembranças mais teimosas. Você segue acompanhado pela Jangadeiros, e ainda não sabe que vai confrontar o passado alguns metros à frente. Você ainda não sabe que ainda hoje, vai descobrir que, finalmente, está pronto para algum futuro.
enviada por Ethan Green
17/01/2004 00:46
SEMPRE QUE CHOVE
Sempre que chove
Tudo faz tanto tempo...
E qualquer poema que acaso eu escreva
Vem sempre datado de 1779!
Mario Quintana
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17/01/2004 00:33
Rua do Couto. Lá você aprendeu a cortar batatas em palitos para fritar. Lembrar desses dias te lembra coisas boas: gotinhas frescas de chuva caindo no rosto. Acordar uma hora antes do despertador trabalhar, e voltar a dormir. Chocolate no caminho de volta pra casa. Pão quente, com um pouquinho de margarina. Arco-íris. Cheiro de pipoca. Os latidos dos cães, quando ecoam de manhãzinha. A salada estalando, na hora da fome. Elis. O abraço das mães. Roupa macia, saindo do varal. Cheiro de livro novo. Maçã verde. Maresia de fim de noite. A Saída do Rebouças. Momentos esparsos. Migalhas. Nutritivas como imperiosas refeições. Você enaltece o simples. O simples que é inspirar, enchendo o peito, e expirar num sorriso gratuito. Você tem medo do próximo instante. Mas esse instante é tão seu, que você esquece suas raízes e se entrega, mergulha na dança das folhas que vivem e se arriscam no extremo dos galhos. Então você lê Cacaso:
Ah!
Ah, se pelo menos o pensamento não sangrasse!
Ah se pelo menos o coração não tivesse memória!
Como seria menos linda e mais suave
Minha história!
(Cacaso - Antônio Carlos de Brito - in 'Beijo na Boca' - 7letras, 2000)
E você sorri. Mais um momento seu. Mais uma cicatriz. Às vezes não importa o peso da entrega, se ele é maior que a vontade de tolher-se e de ser sempre o mesmo. As cicatrizes ainda doem, mas cada nova que se abre faz você esquecer das antigas. Que não importam mais. Você sorri, quando olha para trás. E decide se atirar no abismo do novo. Ainda hoje.
Happy End
o meu amor e eu
nascemos um para o outro
agora só falta quem nos apresentar
(Cacaso - Antônio Carlos de Brito - in 'Beijo na Boca' - 7letras, 2000)
enviada por Ethan Green
08/01/2004 00:16
Nascimento Bittencourt. Um lugar novo. Nova paisagem, uma surpresa. Você ama a cidade quando ela lhe apresenta suas cidades internas. Uma cidade com múltipla personalidade. Aliás, você compartilha com ela muitos conflitos: problemas com auto-estima, medo exagerado e um certo fervor maníaco-depressivo. Você se depara com esse pequeno trecho desconhecido e sorri. Você espera encontrar em você, em algum lugar dentro de você, um pedaço agradável de personalidade, que pareça novidade e que lhe traga alegria. Você observa, num caminho florido entre duas grandes mangueiras, um cão, sendo conduzido por uma senhora de fartas carnes e pouca alegria. O beagle parece tentar mostrar que é possível ser feliz aproveitando os instante em que se passa entre duas árvores como aquelas. Que destes momentos se pode extrair o combustível, a euforia, que se consumirá no trecho seguinte. Você pensa que só o animal, em sua pequenez, pode aproveitar realmente os pequenos momentos. Você se afasta e se percebe faminto, faminto de alegria. Você sabe que ela é jogada aos poucos, como migalhas aos pombos. Felicidade feita de migalhas, eis então a síntese dos seus dias.
enviada por Ethan Green
04/01/2004 12:22
Paineiras. É sempre engraçado andar por aqui, sempre diferente, novo e instigante. Como você está a pé, precisa seguir pela estrada do Redentor até chegar nas Paineiras, e pode aproveitar longos minutos de a sós com a cidade, entre árvores, folhas e saguis. O percurso é difícil e calorento, mas a maior parte das pessoas se priva dessa solidão, quando passa por aqui em seus carros. Você vê Santa Tereza do alto e isso lembra, sempre, um sonho recorrente: você está no centro do Rio, e não há mais ninguém. Sol a pino, lojas abertas, bancas de jornais, carros parados. Você está sozinho, vazio na cidade vazia. Você anda até a Rio Branco, Assembléia, e não vê ninguém. Você entra em um carro abandonado, chave na ignição, tenta ligar, e ele não funciona. Você tenta correr, tenta chegar até o mar, mas sempre se perde, ou acorda antes de chegar em qualquer lugar. Ver a cidade aqui de cima, emoldurada por este silêncio, sempre remete você a esse sonho. Talvez consciente, talvez não, você cria, sempre, a esperança de ter a continuidade daquele silêncio, daquela solidão, daquela paz, quando você descer - com pés doloridos e espírito idem - pela ladeira dos guararapes.
enviada por Ethan Green
31/12/2003 03:22
Zdzislaw Beksinski, artista plástico
http://www.beksinski.pl/
enviada por Ethan Green
31/12/2003 02:43
Praia do Jequiá. Mais de 10 dias que você não se permite perder o rumo, pela cidade, pelas ruas, pelos pensamentos. Você se larga na cama e se entrega ao sono fácil, consciente do preço a pagar. Você sabe que cada dia de monotonia e tédio implica mais e mais dificuldade em refletir sobre as questões importantes, que se debatem em sua cabeça como peixes fora d'água e doem como pontinhas de alfinetes embaixo das unhas. Você mesmo assim se entrega. A morte incomoda, quando se mostra por perto. O ritual que a cerca incomoda muito mais. Você se irrita imaginando quantas vezes ainda terá que assistir tais rituais até que chegue o dia do seu. Seus pensamentos ecoam entre seus ouvidos, as vezes tão altos que você chega a falar, no meio da rua, algumas palavras desconexas. Hoje você faz isso algumas vezes. É melhor falar. Então você quer voltar a falar, mas não sabe por onde começar. Você não sabe julgar o que é mais urgente.
enviada por Ethan Green
16/12/2003 01:46
João Lira. Novas lembranças. Inventá-las, é como escrever um poema. Sem rima, sem métrica. Apenas liberdade poética. É puro lixo, ou pura virtude. Você tem medo do novo, pânico pelo mesmo, horror pelo ultrapassado. Espremido entre esses sentimentos, você corre em direção ao vazio, que você quer saber como é, antes de chegar lá. Você ri sozinho, imaginando que isso é impossível. Você ainda pensa em desistir. Depois você lembra que não deveria pensar nisso, que essa é uma idéia velha e idiota. Você chega no balcão e pede o mesmo café, na bandeja de porcelana barata e branca, para a mesma atendente, no mesmo horário. Mentira. Você está mentindo. Você não pede o café, ela apenas traz, e te cumprimenta pelo nome. Segurança, é o nome disso. Você gosta disso e vai embora satisfeito, olhando para a João Lira, com suas crianças e labradores, e se sente parte da cidade. Você desce a rampa, passa pela gradezinha na parte de baixo e segue pela calçada, como que entrando em um fluxo de pessoas que sabem para onde rir. Você ri, concluindo como isso é patético. Ainda é cedo demais, você só deveria chegar daqui a uma hora. Você poderia ter dormido mais uma hora, ou arrumado seu quarto, ou qualquer outra coisa. Mas você aproveita o tempo sobrando e anda mais um pouco, admirando o dia que começa, que forma cores fugazes, engarrafamentos vorazes e pensamentos... atrozes. Você ri, novamente: às vezes, a tristeza é a única coisa temos ao nosso lado, para rir das nossas piadas.
enviada por Ethan Green
09/12/2003 01:22
Marquês de Abrantes. Antes de qualquer outro sentimento, boas lembranças: o amanhecer barulhento das crianças indo para o Bennett, os cachorros sendo levados para o Aterro, o vendo espalhando os galhos das Palmeiras imperiais pela Paissandu. Café da manhã na SucoMania, com bom-humor e sono. Passeios com o Larry, assustando as crianças na Tucumã. Esfiha de verdura na Rotisseria do largo do machado, suco de laranja com beterraba no hortifruti, internet no @11, chocolate de madrugada no pão de açúcar. Lá você tinha um vizinho copista: senhor, de meia-idade, que passava a maior parte do dia sentado, escrevendo (copiando?), escrevendo...horas a fio. Ele nem sabe...mas inspirava muita segurança, nas noites difíceis de solidão. Nono andar, você via as Palmeiras do alto, mas acordava pontualmente com o RioCidade, quebrando as calçadas, urbanizando o já urbanizado. 1 ano de utopia, e você tentando viver sozinho, no nono andar, de onde não se via o cristo, mas você sabia que estava logo ali, atrás daquele prédio cor-de-rosa. Ainda, lembranças: A rotina prazerosa de encontrar Shamile na loja de comida japonesa e andar até Botafogo, passando pela blockbuster, tropeçando na esquina da Clarice Índio do Brasil e correndo para atravessar o viaduto. E, ainda, a volta pra casa, com Bubu a tiracolo. Isso é passado, e logo será devidamente esquecido, como deve ser.
Esse deveria ser o processo natural. Esquecer. Para evitar as cobranças do presente. Ele quer ser como o passado, e você quer muito mais. Ele lhe cobra atitude, jovialidade e garra, e você só quer tempo. Você gostaria de se esconder na montanha mais alta da planície mais gelada do país mais distante do planeta. Você gostaria de se esconder de você mesmo, e nunca mais ter boas lembranças. Você sorri quando lembra, e se atormenta quando sorri. Será vantagem isso? você se pergunta e sorri. Daí, se inicia um ciclo esquisito. Melhor esquecer.
enviada por Ethan Green
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